Como a aparência física impacta na busca de patrocínio de surfistas femininas

Surfista Silvana Lima diz que não consegue apoio porque não é ‘modelinho’. Caso é recorrente no esporte.

Duas vezes vice-campeã mundial (2008 e 2009) e considerada o maior nome do surfe feminino no Brasil, Silvana Lima, 31 anos, sofre com a falta de apoio. Desde 2011, ela compete sem um patrocinador principal. Em 2015, entre os que se propuseram a associar sua marca à esportista, apenas um pagava em dinheiro - os outros ofereciam produtos, como pranchas e roupas.

“Para as marcas de surfwear [principais patrocinadores do esporte], a gente tem que ser modelo e surfista ao mesmo tempo. Então quem não é tipo modelinho acaba não tendo patrocínio, como foi o meu caso. Você acaba ficando de fora, é descartável”, disse Silvana à rede “BBC”. “Os homens não têm este problema.” 

A falta de patrocínio sempre foi uma complicação em sua carreira. Em 2014, para bancar as viagens de competições, ela precisou vender seu apartamento, no Rio de Janeiro, e seu carro. Ainda não foi suficiente. O que garantiu a passagem para competir na Europa, por exemplo, foi vender os seis filhotes de buldogues franceses que sua cadela teve.

Ela também foi prejudicada por três cirurgias no joelho - o que a atrapalhou nas provas e também afastou patrocinadores. Em 2016, ela está fora da elite do surf. Agora ela mira uma boa campanha no QS, competição que pode classificá-la para o mundial em 2017. 

Mesmo quando esteve na elite do esporte, ela não era citada como integrante da “Brazilian Storm”, apelido dado aos principais surfistas brasileiros. "Na real tinha uma menina competindo ali, tinha uma menina na elite mundial e não falavam meu nome. É o que a galera acha, que eu não faço parte do Brazilian Storm, apesar de estar aí ainda. Não vou forçar nada, mas vou aparecer no Brazilian Storm naturalmente, como já me sinto”, disse ao Globo Esporte.

Silvana, que nasceu em Paracuru, município a 87 km de Fortaleza, capital do Ceará, teve uma trajetória difícil: é filha de pescador, passou fome, dormiu na rede por não ter colchão e vendia adesivos na escola para poder comer. Em 2015, dizia à “ESPN” que “não é dinheiro que vai me parar”.

A conta do patrocínio

A questão é um debate antigo no esporte. Em 2004, o pesquisador Jorge Dorfman Knijnik, doutor em psicologia social pela USP, analisou a representação do corpo feminino no surfe. Segundo ele, os padrões de feminilidade são exigidos pela mídia e pelo público - as favoritas são as que se encaixam em padrões específicos de beleza, e não necessariamente as que têm a melhor performance.

“Aspectos envolvendo patrocínio e imagem publicitária, segundo a maioria das surfistas entrevistadas, estão diretamente ligados a aparência da atleta e a sua feminilidade”, diz o estudo. Não por acaso, quase 30% das surfistas entrevistadas mostraram insatisfação com o próprio corpo.

Pesquisadores da Universidade de Griffith, na Austrália, entrevistaram surfistas para um levantamento sobre o mercado e patrocínios no esporte. Eles constataram que no surfe há, em geral, dois tipos de patrocínio.

Um deles é direcionado a uma atleta específica, baseado em sua performance e potencial no esporte. Para garantir o patrocínio - que pode ser financeiro, direcionado especificamente a um torneio, ou produtos -, a atleta passa por uma entrevistas e triagem para ver de que forma ela poderia representar a marca.

Outro aspecto relacionado ao patrocínio é o estilo de vida. As atletas são relacionadas a um produto ou marca específico e viajam o mundo para representá-los com sessões de fotos e entrevistas.

0,4%

Foi a participação do patrocínio das mulheres no esporte britânico

Nos dois casos, segundo os pesquisadores, os aspectos físicos são levados em conta. “Eu acho que a Billabong [marca de roupas e artigos de surfe] quer projetar uma certa imagem. É uma imagem de um estilo de vida saudável, magro, feliz e com uma atitude positiva”, disse uma das atletas, não identificada, ouvida pelos pesquisadores.

As empresas já admitiram que levam em consideração esses aspectos ao optar por um patrocínio. Em uma reportagem na revista “TPM” mencionada no estudo de Knijnik, o então diretor de marketing da Billabong, Marcelo Lagrotta, falou: “quem patrocina uma menina que não surfa nada se queima. Mas, se surfar bem e for gata, melhor”.

Há ainda uma questão anterior relacionada ao esporte feminino no geral, independentemente da beleza. Segundo a organização inglesa “Women in Sport”, a participação do patrocínio a mulheres no esporte britânico foi apenas de 0,4% do total entre 2011 e 2013. A cobertura midiática também foi minoritária: as categorias femininas corresponderam a 7% das notícias veiculadas.

Fonte: Nexes

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