A minha geração se ferrou muito porque fomos a geração transicional’, diz Céu

Com disco recém-lançado, ‘Tropix’, cantora e compositora se prepara para turnê e fala ao Nexo sobre sua relação com a tecnologia e os processos políticos atuais

Depois de mais de uma década desde o lançamento de seu primeiro disco, Céu chega ao quarto, “Tropix”, com maturidade de compositora e cantora consolidada. Desse lugar, ora critica e ora celebra a tecnologia que nos cerca hoje de maneira irreversível. Sem relativizar a contribuição da internet para o crescimento de artistas como ela própria, é avessa à “egotrip” do excesso de selfies compartilhadas nas redes sociais e se inquieta com a geração que “quase não ouve uma música inteira”.  

Apesar de seu novo trabalho ser puxado para um universo de sintetizadores e referências até então encobertas nos discos anteriores, ela afirma a unidade da obra e identifica no momento atual da indústria musical uma solidez maior do que quando começou. Caminhando por esse terreno movediço da música dos últimos dez anos, conseguiu se firmar e lançou “Tropix” no Spotify, plataforma digital de streaming. Pontua que a transição não foi fácil para sua geração, contemporânea de seus 36 anos, mas que os rumos do que vem por aí já estão mais claros.

“Acho que o elemento mais diferente nesse disco é esse flerte com um mundo mais sintético e mesmo assim, esse mundo sintético que eu criei, de sintetizador, de beats, essa ode às máquinas, é uma máquina totalmente tropical, brasileira, sabe? Que você coloca na floresta, fica úmida e enferruja.”

Céu

cantora e compositora

Em entrevista ao Nexo, a artista fala sobre seu último lançamento e sua relação com a modernidade:

O que você tem ouvido ultimamente?

CÉU  Quando eu tava fazendo o Tropix, eu estava ouvindo muita coisa que sempre escutei, mas que nunca ficou em voga, aparente nos meus álbuns. Sempre escutei rock, sempre escutei pós-punk, punk e coisas mais duras também tipo krautrock, umas coisas assim. Eu tava curtindo as máquinas e coisas... beat, sabe? Tava achando interessante voltar pra esse ritmo, uma coisa que eu já tinha feito no meu primeiro disco. E sei lá, também tava ouvindo Blondie, umas coisas que adoro e que são referências eternas: a música brasileira, o próprio samba, coisas que sempre curti e que sempre estiveram presentes.

A diferença é que dessa vez você deixou que essas referências ficassem claras.

CÉU  Eu acho que sim, acho que no Tropix consegui trazer um pouquinho de um outro universo que nunca tinha trazido tanto e acho que isso se sintetizou em forma de beats, batidas quebradas, sintetizadores. Eu lembro muito claramente de querer o Arpeggiator, que é um tipo de sintetizador muito usado nos anos 80 e que pra mim fala muito sobre isso, sobre essa coisa meio fixa. Porque um acorde no Arpeggiator faz “tantantantantan” ao invés de fazer “plan”. Eu tava afim de brincar com essa coisa meio de maquininha.

Qual foi o cuidado pra que sua identidade fosse mantida em meio a essas novas referências?

CÉU A minha maneira de compor, de escrever e fazer melodia e de cantar tem uma unidade. Eu acredito na unidade do meu trabalho nesse aspecto. Eu acho que hoje posso me considerar uma compositora mesmo, eu tenho quatro discos, apesar de muitas vezes ainda a imprensa falar “a cantora…”, mas não, eu componho faz quatro discos.

Existe um jeitinho que é próprio, que se você tirar todo o arranjo, a arregimentação que eu faço, que nesse dão essa “cara” de novidade, você vai ver que são músicas do Brasil. Na maior parte disso você vê claramente a influência do Baden [Powell], tem uma coisa do Martinho [da Vila] também, ‘Perfume do Invisível’ [primeira faixa e single do álbum Tropix] parece um pouco as coisas antigas do Erasmo [Carlos] . Claro que não do gênio deles, da minha maneira de interpretá-los.

FOTO: LUIZ GARRIDO

"EU SEMPRE TRANSITEI POR ESTÉTICAS. EU NÃO ACHO QUE ESSES QUATRO [DISCOS] NÃO SE CONVERSAM", DIZ CÉU

Pelo que você falou parece que te incomoda o tratamento de cantora, que você gostaria de não receber só esse título.

CÉU Não, é porque não sei, nem me considero uma ultra-cantora (risos). Sabe? Acho que o Brasil é um país de cantoras, eu sou cantora mas acho que meu trabalho sempre passou mais por outros espectros também da música e não só o canto. Mas não me incomoda não, eu curto muito. Eu acho que não é sobre esse aspecto, tem outro aspecto também.

Mas você prefere o título de compositora, por exemplo, ao de cantora?

CÉU Não...cantora e compositora. É porque, eu tava conversando com um outro jornalista ainda agora, faz muito pouco tempo que começaram a entender que eu componho.

Você acha que isso dialoga com uma herança de achar que as cantoras brasileiras são só intérpretes?

CÉU Acho que pode ser, sim. E tem um amadurecimento meu também, próprio, como compositora. E até assumir, sabe, esse meu lado de compositora. Porque eu mesma fui criada em um ambiente de música muito rígido e muito saturado. Até pra eu mesma me assumir uma compositora tinha um peso que eu ficava meio “ai meu deus, será que é isso?” Hoje eu acho que o Tropix é um disco em que sou eu compondo mais assim do meu jeito mesmo. Mais madura, né, também. Em quatro discos a gente aprende bastante.

Tropix é diferente dos outros?

CÉU Eu acho todos diferentes. Eu sempre transitei por estéticas. Eu não acho que esses quatro não se conversam. Essa é a minha opinião. Eu acho que os quatro são do mesmo universo. Eu sempre curti o roots, o rock e o reggae. O roots abrange toda a brasilidade que eu tenho, que eu sempre trouxe, que é de família e eu continuo ouvindo. O rock, acho que não necessariamente só o estilo, claro que tem um pouco [do estilo também], sempre teve uma atitude na estrada, sempre fui quase uma banda de rock na estrada e sempre curti Jovem Guarda, Jimi Hendrix, Velvet Underground e tal. E o reggae que todo mundo sabe que sempre esteve presente. Esse é o meu lugar.

Qual você sente que é o seu lugar e a sua herança entre essas cantoras todas da música brasileira?

CÉU Eu acho que sou uma filha do tropicalismo, com certeza, isso eu diria pra você. É o movimento do qual mais me sinto dentro. Não sei, acho um pouco difícil essa pergunta, porque são muitas que me influenciaram, Gal [Costa], Baby [do Brasil], Elza [Soares], Clara [Nunes]. Não consigo olhar uma e falar “é essa”.

Olhando para o seu primeiro disco no início dos anos 2000, a gente ainda não tinha streaming, mas o mercado fonográfico já estava abalado. O Tropix foi lançado direto no Spotify. O que mudou no mercado?

CÉU Eu lembro que 2012, foi o ano do Caravana [‘Caravana Sereia Bloom’, disco anterior da cantora], a indústria da música tava bem perdida, tava ruim pra música. E agora as coisas estão voltando a se assentar um pouco. Hoje em dia a gente pode entender melhor aquela conversa que eu já tinha com várias pessoas na música em 2005, que a música ia virar um serviço. E virou. Hoje você paga e você tem um serviço. Não vai mais ter nada na sua mão, a música existe nas plataformas digitais.

“Tudo que a internet ofereceu para os artistas de pequeno porte foi maravilhoso.”

Você enxerga esse processo com otimismo?

CÉU É bom ter um aspecto de não precisar “ter” tanta coisa, eu acho legal a gente poder ter nesse plano digital. E também a internet, tudo que ela ofereceu para os artistas de pequeno porte, foi maravilhoso. Eu mesma sou uma pessoa que se aproveitou muito disso tudo. Mas ao mesmo tempo, acho um pouco difícil esse vínculo absurdo que o ser humano tem cada vez mais com o mundo digital. Daqui a pouco não sei como vai ser, acho que a gente vai estar grudado em uma tela, vai ter a tela dentro da gente, não sei como vai ser. Acho que isso me entristece um pouco, olhando como mãe, olhado para o futuro da minha filha… Nesse aspecto me cansa um pouco. Mas no aspecto da música eu acho positivo.

Você acha que os artistas brasileiros da sua geração têm sabido se adaptar?

CÉU Acho que quanto mais nova a geração, mais fácil a compreensão, o entendimento de toda essa mudança. Acho que a minha geração se ferrou muito porque a gente foi a geração transicional. Porque a gente pegou a parte boa da outra geração e tá pegando a parte nova, da nova geração.

“Quando você põe um selfie, a multiplicação de likes é enorme, então eu poderia ficar pondo um monte de selfie. E não é nem sobre a questão de ser um selfie em que eu tô bem ou mal, é um selfie, entende? Tem um vazio sobre isso.”

Qual era a parte boa da geração anterior?

CÉU Ter acesso a uma ficha técnica boa e completa rapidamente. Eu mesma sou uma devoradora de ficha técnica. Eu adoro ver quem fez tudo, eu adoro ver os nomes, eu degustava um disco. Quando um disco ia ser lançado, eu cruzava a cidade de ônibus pra ir comprar um disco e quando chegava em casa eu punha o disco e ouvia com atenção. Isso era uma degustação mesmo. Hoje em dia eu acho que não existe um apego tão grande com a obra, sabe? Com o momento, o minuto, às vezes até o segundo. A geração nova quase não escuta uma música inteira. Eu acho isso um pouco triste. Mas, não sei, eu acho que as coisas mudam e o mundo acompanha. Acredito que as coisas não sejam à toa e a gente tem que correr atrás das mudanças. Agora, que foi difícil e [ainda] é um pouco, é.

Ainda nesse campo da tecnologia, você é contida nas suas redes [sociais], né?

CÉU Sou, é, não sou super ativa.

Como você lida com esse aspecto da vida?

CÉU Eu acho esquisito ficar o tempo todo postando coisas. Eu acho curioso. Quando você põe um selfie, a multiplicação de likes é enorme, então eu poderia ficar pondo um monte de selfie. E não é nem sobre a questão de ser um selfie em que eu tô bem ou mal, é um selfie, entende? Tem um vazio sobre isso. Às vezes pode ser interessante, e eu já fiz os meus, mas às vezes me parece um nada. Então eu não posto tanto mesmo. Eu acho até que meu escritório deve achar péssimo. Mas é o jeito que eu me entendo com isso e que eu desenvolvi, que me deixa mais tranquila.

Mas você evita por achar meio assustadoras as proporções que isso toma quando você é conhecido?

CÉU Não, não é sobre susto, é sobre egotrip um pouco, sabe? Acho cansativo. Eu mesma não curto ficar vendo. Eu tenho um monte de likes de páginas de artistas que eu gosto e eu não acho legal quando o artista fica postando um monte de coisa o tempo todo. (risos) Eu acho que as coisas têm um ritmo, sabe? A ser respeitado. E eu tenho muito respeito por quem dá like na minha página, de certa maneira. Mas eu posso estar enganada, talvez isso seja uma visão super antiquada.

“O dia da votação do impeachment foi triste para mim. Muito triste.”

O Brasil está atravessando um momento de crise política e de posicionamento dos artistas. Você acompanhou a votação [do impeachment] na Câmara? Como você comenta esse processo?

CÉU Olha, pra falar a verdade nem acompanhei tanto porque era o dia do meu aniversário. Tava tendo uma festa na minha casa. Mas estou acompanhando completamente tudo todos os dias. E estou muito triste, mesmo. Acho que a gente deu muitos passos pra trás em uma coisa que a gente já tinha conquistado.

As pessoas confundem muito ser de esquerda, direita, partido...não é sobre isso mais, é sobre o Brasil, é sobre a gente poder ter voz, é sobre a democracia. E acho que independente de quem as pessoas votaram, do que acham do governo vigente, que a gente cometeu um atentado contra uma ferramenta de liberdade e eu fico muito preocupada. Foi um dia triste pra mim. Muito triste. Eu me interesso muito por esse assunto e fico realmente achando que a gente retrocedeu.

 Fonte: Nexus

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